domingo, 4 de dezembro de 2011

FIM DE SEMANA PÓS PALCO GIRATÓRIO...

Desde que voltei da viagem pelo Palco Giratório/Sesc que uma incrível vontade de não fazer absolutamente nada tomou conta da minha alma e do meu corpo. Virei um bicho preguiça. Tenho feito operação tartaruga comigo mesmo. Feito o mínimo necessário para manter a vida em ordem e não cair em desgraça comigo mesmo. Mas para um maluco como eu, workaholic da informação, fazer nada se aproxima muito de ler, ver, pensar e projetar coisas para o futuro. Até quando, meu Deus, vou ter forças e energias para seguir mandando minhas balas? Tive tempo, por exemplo, de assistir com a Lea à minissérie “Downton Abbey”, vencedora do Emmy e que é uma diversão inteligentíssima em seis capítulos de um novelão tipicamente inglês recheado de humor, ironia, elegância e interpretações do mais alto nível. E se Maggie Smith ganhou o Emmy de atriz coadjuvante, porque realmente dá um show, o resto do elenco não fica atrás. Surpreende até a atriz Elizabeth McGovern, agora com 50 anos e que concorreu ao Oscar em 1982 por “Ragtime”. Digo surpreende porque ela está muito interessante, embora sempre tenha dado visíveis demonstrações de inexpressividade, inclusive no filme de Milos Forman. E se o assunto ainda é cinema, achei um tempinho pra assistir com o Guhstavo ao filme dos Muppets. Uma gracinha! Com incríveis momentos de alto humor e fofura. Eu acho que o filme vai ser um fracasso no Brasil. Não é o tipo de nostalgia que embala as saudades televisivas dos brasileiros e para esses nossos tempos de cinismo descabelado, os Muppets e suas ingenuidades não são antídoto. Eu me diverti muito. Só queria que fosse legendado, mas aí era pedir demais. Da água para o vinho. O Corinthians resolveu sagrar-se campeão do brasileirão (Campeão do brasileirão? Que horrível!) bem no dia em que faleceu o querido Sócrates! Nossa, torci demais para o Corinthians. Primeiro porque admiro a seriedade do Tite, que nem sei direito se é um treinador vip; e segundo porque, oras, nadar, nadar e morrer na praia seria injusto! Chega de sofrimento em massa e por razões fúteis! E já que eu falei de futebol, o que custa dar uma opiniãozinha sobre vôlei? A seleção do Bernardinho é tão especial, tão respeitada e admirada, que mesmo tirando o terceiro lugar na Copa do Mundo de Vôlei, merece aplausos! Como disse o Woody Allen: “a gente não pode ter tudo na vida...”, e por isso é bacana demais torcer para aqueles atletas que venceram tanto! Domingo bem cedo eu pulava na poltrona, roendo as unhas e vibrando com cada ponto. Sei lá como anda a relação interna do Bernardinho com o time, mas... Do vinho para o azeite. Prêmios? Começaram a pipocar os prêmios para o cinema americano. Começo a ficar irritado. Por quê? Alguém pode me dizer porquê a Meryl Streep é tão fantástica? Ela desponta novamente com uma super interpretação da Margareth Tatcher em “The Iron Lady”, já ganhou o prêmio de atriz no Círculo dos Críticos de Nova Iorque e lá estou eu, de novo, torcendo para que ela ganhe seu terceiro Oscar. Sei que não vai ganhar, que sempre vão achar alguma atriz para premiar, seja lá por qual razão, mesmo ela sendo a melhor do ano! Mas fico torcendo! Que fazer? E me irrito quando ela perde, como aconteceu há dois anos quando deram o Oscar para o poço de mediocridade que era o trabalho da Sandra Bullock, enquanto a divina Meryl destruía numa composição perfeita em “Julie & Julie”! Fazer o quê? Bem... prêmios... dizem de tudo, menos de tudo... E a temporada do Oscar promete: “Hugo”, do Martin Scorsese, “The Artist”, “We Need To Talk About Kevin”, “The Help”, “Tinker, Taylor, Soldier, Spy”, “Shame”com o maravilhoso Michael Fassbender, “The Descendants”, “J. Edgar” do Clint, com o Leonardo, “War Horse” e “Tintim”, do Spielberg, “My Week With Marilyn” com o Keneth Branagh interpretando Sir Laurence Olivier! É de tirar o fôlego? Será que vai sobrar alguma indicaçãozinha para o Woody e seu magnífico “Midnight in Paris”?  Do azeite para a merda. O Ministro do Trabalho finalmente pediu demissão. Sabe o quê? Não vou falar disto...!

sábado, 3 de dezembro de 2011

Três meses depois!

Foi, sim, uma longa viagem. Que começou em Guaramiranga, na região serrana do Ceará e terminou em Poconé, cento e poucos quilômetros de Cuiabá. Minas Gerais, Ceará, Rondônia, Espírito Santo, Piauí, Alagoas, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Amapá, Tocantins, Mato Grosso... Uma aventura de teatro que bem poderia virar um roteiro de cinema, bastando que se acrescentasse aqui e ali alguns elementos de pura ficção e, quem sabe dourando a pílula de outros acontecimentos inusitados. Eu imagino que seria um filme sobre a arte e seus significados, alguns mais importantes, outros menos, conforme o artista e conforme o público. Porque posso garantir, de experiência vivida, que, literalmente do Oiapoque ao Chuí, nossos brasileiros vêem a mesma coisa de formas muito diferentes. E isso é rico e é impactante. E pude vivenciar em sangue e carne, essa vivência, tanto como autor, quanto diretor e quanto (mais que tudo!) ator. Num espetáculo tão aberto quanto “O Evangelho Segundo São Mateus”, houve momentos em que nunca tinha a noção clara do quanto teatro é mensagem, história, catarse, diálogo, forma ou conteúdo. O que dizemos? Para quem? Qual a prontidão de nossos ouvidos? Até que ponto o olhar do artista está conectado ou desgarrado do olhar do público? Quando ainda não era ator desse espetáculo e o assistia emocionado, sempre tive a perfeita noção de que se nunca mais fizesse teatro, teria (dramaticamente) cumprido minha parte. Porque tudo o quanto acredito em termos humanos, é nesse suave e simples espetáculo que coloquei. Depois de 54 espetáculos pelo Palco Giratório do Sesc, sei que esse exercício “demasiadamente humano” é um vórtice de contradições e paradoxos. Porque nem sempre “ama a teu próximo como a ti mesmo” é mais importante que tudo. Mesmo que num esforço de direção (minha) e interpretação (dos atores) todos os cuidados tenham sido tomados para que a palavra abocanhasse o público. Foram três meses onde a fugacidade deu as cartas. Onde o momento presente nunca precisou ser tão acarinhado (como pediu Caio Fernando Abreu), porque mais que sempre, o presente transformava-se em passado num rotineiro check-out de hotel. E quantos foram, meu Deus! Quantos aeroportos, quantas estradas, quantas cidades, quantas pessoas, quantos beijos, quantos abraços, quantos climas e paisagens... e culinárias! Quantos alvoreceres e quantos pores do Sol! Parecidos sim, mas diferentes em emoção conforme a chegada ou a partida. Três meses depois alguns laços de confiança se estreitaram, algumas paixões artísticas viraram obsessão, algumas saudades do que poderia ter sido vivido com maior intensidade, não fosse tão rápida a passagem. Três meses depois algumas certezas viraram incertezas e outras se transformaram em simples poeira no tempo. Três meses depois de dezenas de quartos de hotéis, a certeza de que um “quase tudo”, de verdade, aconteceu! Desde a mais frágil futilidade, passando pela mais engraçada vulgaridade, até a mais complexa sutileza e a mais profunda experiência de vida! Três meses... um hiato! Três meses e um caminhar cuidadoso e às vezes irresponsável pela corda bamba do sonho e da utopia. Pra terminar este post sem muito sentido, uma citação de Fernando Pessoa, que nos acompanhou como eterno amigo e companheiro nesses três meses:
“Quando vier a próxima estação,
Se eu já estiver morto - por exemplo -
As flores florirão da mesma maneira,
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada,
A realidade não precisa de mim.
E eu sinto uma alegria imensa,
Em pensar que a minha morte
Não tem importância nenhuma!”
E também, como diria aquele que ninguém pode garantir direito se é realidade, mito, ficção, pura invencionice, crença ou necessidade:
“Ama a teu próximo como a ti mesmo!”
Três meses depois, a vida continua... e o nosso amor pelo teatro!
PS: A foto é do amigo e jornalista Edson, do site Cidade Rosa, de Poconé... nossa última apresentação no Palco Giratório/Sesc.

sábado, 12 de novembro de 2011

Almodóvar...



No dia 7 de outubro entramos, eu e o Grupo Delírio, em um avião com destino a Campo Grande, no Mato Grosso do Sul e já lá se vão 35 dias e ainda não demos as caras por Curitiba. Já andamos por Minas Gerais, Espírito Santo, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Amapá e agora estamos no Rio Grande do Sul. A longa viagem do nosso “Evangelho Segundo São Mateus”, pelo Palco Giratório do Sesc ainda passará pelo Rio de Janeiro, Tocantins e Mato Grosso. Depois, no início de dezembro, de volta para Curitiba. É verdade, voltaremos outros, mexidos e remexidos, plenos de aventuras de todos os tipos, plácidos e violentos, apaixonados e amantes, artistas e descobridores, um pouco sociólogos, antropólogos, talvez... filósofos. Fato é que algumas âncoras vão dando a sensação da realidade, aquém do sonho, aquela que nos diz: “olha, Curitiba, você, fique atento à sua história...!” Ainda bem que são realidades lúdicas, que tratam das nossas delícias, nossas felicidades clandestinas. Como aqui em Porto Alegre, onde fomos eu, o Gustavo e o Tiago, assistir “A Pele Que Habito”, o novo Almodóvar. Almodóvar que não cansa de pensar a vida e suas múltiplas possibilidades sexuais. Almodóvar que viaja pelo inconsciente, mais do que no sonho, no desejo; naquilo que temos de mais secreto, incapaz de se realizar, senão por um preço alto demais. E esse gênio da vida, que visitou Douglas Sirk, Joseph L. Mankiewicz, Tennesse Williams, Pina Bausch e Hitchcock, resolve agora brincar de Fritz Lang e, mais do que tudo, outro gênio: James Whale! Ah, James! Você que criou Frankenstein e a sua noiva, deve estar orgulhoso de Almodóvar! Com seu espírito humano e revolucionário, deve imaginar que mundo é este onde o homem e o monstro são tão parecidos e por que lutam tanto um com o outro? Talvez a grande sacada de Almodóvar é a que nunca encontra respostas, mas se enche cada vez mais de perguntas. Afinal, quem somos nós? Por que temos tanto medo? E do quê? Nossos pesadelos falam mais de nós mesmos que nossos sonhos e nossas ações. Grande Almodóvar, esteta magnífico, poeta/pensador contemporâneo, que devolveu dignidade a Antonio Banderas e dá à Marisa Paredes mais uma oportunidade de mostrar seu talento e seu histrionismo. “A Pele que Habito” é daqueles filmes que logo após terminar, nos dá vontade de ficar para a próxima sessão. Curtir o Frankenstein de Almodóvar, que não é a coisa inventada com pedaços mortos, mas a coisa criada e recriada com os próprios pedaços, mosaico de carne viva, sedenta de prazer! Almodóvar, como Woody Allen e Tarantino são minhas felicidades clandestinas!

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O que corta o coração…

Longe, estou muito longe. Longe de Curitiba. Em Maceió, enamorado do mar mais lindo, esparramando-me em frutos do mar de todos os tipos, sob um sol de fantasia, dormindo um sonho de artista que viaja, viaja, viaja, e que (de coração) não sente vontade de voltar pra sua terra. Só sente vontade de continuar indo, como se existisse ainda tanta geografia pra ser explorada e tanto teatro pra apresentar “O Evangelho Segundo São Mateus”. E o contato com a frieza do clima curitibano é o Áldice, que conta dos poucos graus curitibanos, da chuva, do Speechless, meu cachorricho, da amiga Léa, do que me espera na volta que (talvez) ainda vai acontecer só em dezembro. Mas nesta quarta-feira, eu no quarto do hotel, 17h30, toca o celular e eu atendo. É, mais uma vez o Áldice; e assim, suavemente, como tem de ser, ele me conta que há uma semana faleceu a Rosirene Gemael. Ai. Jornalista de tantas histórias e tantos encontros. Falamo-nos muitas vezes por conta de nossos ofícios e trabalhamos juntos durante quase um ano na TV Educativa, quando eu participei do “Enfoque”, de muitas saudades. Rosirene sempre me foi tão doce, tão carinhosa, tão explicitamente colega. Depois, quando ela escrevia um livro sobre a Lala Schneider, tivemos outros encontros. E eu fico sabendo de sua morte uma semana depois dela. Ok. Me dói demais. Há uma semana eu estava tão longe quanto hoje, em Arcoverde, Pernambuco; mas sei lá, gostaria de ter me despedido dela. Gostaria de ter derramado algumas lágrimas, como derramo agora, tardias. Quando morre alguém tão querido, o tempo fecha e as nuvens escondem o sol, mesmo que por alguns minutos. E, assim, do nada, lembro da primeira vez que encontramo-nos, no extinto diário “Correio de Notícias”. Rosirene ativa, vibrante, plena de jornal. Ai. Que dizer? É preciso dizer? Sei lá, mas é preciso deitar-me, fechar os olhos e pensar/viver um adeus silencioso, aquele que repassa na memória cada encontro, cada palavra trocada, cada profundidade de olhar, cada esperança e cada paixão vivida. Paixão pela cultura, pela arte, pelo significado das coisas. Adeus, minha amiga, adeus. Triste saber que vou voltar pra Curitiba em dezembro e não vamos nos encontrar em qualquer momento. Adeus, querida. E aí, uma fala simples do Tom Jobim, que me inspira na sua saudade:
Quando uma árvore é cortada ela renasce em outro lugar. Quando eu morrer quero ir para esse lugar, onde as árvores vivem em paz.”

Poster que vale a pena postar!

Que filme é este? Sei lá!

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Feijão com arroz



Selton Mello é um artista tão especial que dá até um aperto no coração falar alguma coisa não muito positiva de um filme seu. E eu, que gostei tanto de “Feliz Natal”, por exemplo. E lá fui, em Petrolina, assistir “O Palhaço” seu segundo longa. É sim, um filme cheio de boas intenções, carregado de ternura e quase um oásis na “idiotice da objetividade” que perspassa o cinema brasileiro. É também um acariciamento de amor ao cinema e aos atores. Pois é, mas é básico, surpreendentemente primário, apesar de uma fotografia deslumbrante e uma trilha sonora que dá o tom exato, seja emocional ou rítmico, a cada passagem. Assistindo “O Palhaço” tem-se a impressão de que o cinema foi inventado a menos de uma semana. Que ainda virão, daqui oitenta anos, Chaplin, Fellini, Spielberg, Glauber Rocha, Bergman, Hitchcock, John Ford e tantos que ensinaram como se faz um filme. “O Palhaço” procura, sem saber direito em que lugar, um espírito de Chaplin, de Buster Keaton, de Fellini... até de Mazaroppi, mas nunca consegue aprofundar-se um centímetro sequer, nem nos personagens, nem na trama, nem no próprio cinema. E olha que alguns planos são lindos e o filme capricha em participações especiais que são um primor, particularmente a de Moacir Franco que dá um show! Buscando um cinema puramente emocional e muito popular, Selton Mello apenas ouve o galo cantar... e, perdoem a amargura, mas como ator ele tem repetido demais os tiques e cacoetes que fizeram dele um ídolo da televisão. Funciona, sim, funciona, mas para quem tem preguiça de rir ou se emocionar com algo novo, original, e prefere o que já está codificado pela novela das sete ou pelos especiais engraçadinhos depois da novela das nove. “O Palhaço” faz de conta que quer falar de alguma coisa, mas se perde num roteiro frágil e num excesso de planos inúteis. Cinema é imagem, sim, mas elas têm que ser tão ou mais fortes que as palavras que, por elas, são trocadas.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Poster que vale a pena postar!

Marilyn Monroe está de volta, linda e deslumbrante na interpretação de Michelle Williams!!! E dizem que Kenneth Branagh vai ser indicado ao Oscar, na interpretação de Sir Laurence Olivier!

Só um milagre,,,


Os Irmãos Farrely encararam a empreitada de (re)inventar OS TRÊS PATETAS... O filme está quase pronto e estreia em abril de 2012. Saiu a primeira foto oficial. Que os deuses do cinema digam amém, porque, salvo melhor juízo, só um milagre...

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

PAN!



Perigo! Perigo! O Brasil tem 39 medalhas de ouro e cuba 37, ou seja, o nosso Segundo lugar está ameaçado pela pequena ilha caribenha. O Juca Kfouri alerta e acrescenta ainda que Cuba tem bem menos investimento em esportes e está mandando bala no pan. E eu aqui fico pensando: e daí se Cuba passar nossas medalhas de ouro e for o segundo lugar? E daí se formos o terceiro ou quarto? E daí? Ok! Cuba tem um esporte exuberante, mas Cuba tem uma imprensa exuberante? Um teatro exuberante? Uma literatura exuberante? Uma televisão exuberante? Um cinema exuberante? Tem nada! Claro, um país onde o pensamento livre é um crime, o único investimento tem que ser mesmo no esporte, onde a opinião e a poesia não têm qualquer espaço de vida. Não é preciso ter ideias e pensar livremente para correr muito, encaçapar bolas em aros, levantar pesos ou dar golpes de boxe ou judô. Perigo! Perigo! Viva o Pan e viva as nossas 39 medalhas de ouro, as nossas 25 de prata e as nossas 45 de bronze !

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A SELVAGERIA


 As imagens do ditador Kaddafi, preso, ensangüentado, sendo praticamente linchado e depois morto com tiros na cabeça e no peito, humilhado e desumanizado (ou humanizado) são realmente chocantes e dão a medida clara de quem somos nós. Que a civilização, por mais que siga seu rumo em direção a algum tipo de compreensão da própria fragilidade e beleza, tem muito ainda a caminhar, muito ainda a evoluir. Andei assistindo à minissérie britânica “Dowton Abbey”, um novelão que é um primor de humor fino, crítica social e observação dos modos e costumes. Todo mundo, de criados a aristocratas, são elegantes, educados, finos e limpos. E nas entrelinhas ainda se pode ver a sujeira e a hipocrisia. Mas ainda assim, aquela limpeza mandava seus soldados cometerem as maiores carnificinas nas colônias inglesas espalhadas pelo mundo. O ser humano é digno de lástima, como disse Strindberg. Mas voltando a Kaddafi, uma das figuras mais desprezíveis de nossos tempos (mas não o único!) foi um assassino monstruoso que nunca hesitou um instante sequer em mandar suas tropas torturarem, assassinarem e exterminarem seus opositores. Tratou a sua própria gente como lixo descartável. A história recente é cheia desse tipo de selvageria, que no meu modo de ver, é tudo farinha do mesmo saco, desde Hitler e sua matança sádica e incompreensível: as bombas de Hiroshima e Nagasaki, o assassinato de JFK, o massacre de Ruanda, o 11 de setembro, o fim do ditador Sadhan Hussein, a execução do ditador comunista da Romênia e a jararaca da sua mulher, os assassinatos capitais determinados pelas ditaduras comunistas depois das revoluções (Russia, Cuba, Tchecoslováquia, China etc.), os extermínios da Iugoslávia, as torturas e assassinatos cometidos no Chile, Argentina e Brasil na época das ditaduras militares, a violência dos traficantes e milicianos espalhados pelas favelas brasileiras, a ação dos coronéis do Nordeste, deixando morrer à míngua a população miserável e vítima da seca, os prefeitos espalhados pelo Brasil que roubam o dinheiro destinado à saúde, educação, merendas escolares, o assassinato de Chico Mendes e outros líderes populares na Amazônia, etc.... Enfim, seria preciso um exercício infernal de crueldade para listar a marcha da civilização e suas atrocidades. Acontece que em nossos tempos tudo é filmado, registrado e escancarado, então que fica difícil escamotear a nossa selvageria por trás dos perfumes e da aparente civilidade. Somos uns monstros! Acredito que sim, nenhum homem é uma ilha, nenhum homem pode se isentar de algum tipo de responsabilidade, seja por omissão ou nas pequenas e selvagens ações que tomamos a cada dia, fazendo de conta que elas não interferem no universo. Hoje mesmo, conversando com uns amigos, felizes, divertidos, que brincam e vivem a vida com poesia e festa, perguntei-lhes sobre Kaddafi. Todos responderam: quem? E, pra mudar de assunto e tratar de algo mais leve, perguntei-lhes sobre as medalhas brasileiras no pan-americano. E, eles: quê? Rs. Só voltando ao ditador assassinado com requintes de selvageria descontrolada. Tenho vontade de rir quando ouço que a ONU pede investigação sobre as circunstâncias de sua morte. Claro, é preciso borrifar um pouco de perfume sobre o óbvio, porque mais importante que ser honesto, é parecer honesto. E o Kadaffi? Como culpar um povo tão humilhado, tão massacrado, tão roubado, tão ofendido? Melhor virar a página e esperar pela próxima selvageria exibida em vídeos amadores na internet ou no jornal da TV. E creiam, aquela que acontece no outro lado da rua não é muito diferente!

sábado, 15 de outubro de 2011

Leon...


 Como é difícil falar da tristeza que senti ao receber a notícia da morte de Leon Cakoff. Tinha por ele a mais profunda de todas as admirações. Só o vi uma vez, pessoalmente, na inauguração do Unibanco Arteplex, no Crystal em Curitiba. Naquele dia assisti “Má Educação”, do Almodóvar. Leon. Ano passado, curtindo a raspa do tacho da Mostra de Cinema de São Paulo, cinco horas no Cine Livraria Cultura, “Carlos”, de Olivier Assayas, agradecia aos céus por ele existir, sonhar, inventar, propor, ousar e carimbar a necessidade do cinema como alimento tão necessário, qual água, arroz, feijão, batata, carne, amor e sexo. E agora é a hora de dizer adeus. Ai. Que é da arte, da aventura e da loucura, sem seus ousados heróis? A morte de Leon Cakoff é um golpe profundo no amor ao cinema, uma desesperança... Claro, o cinema segue e agora tem um anjo da guarda em outra dimensão. Deveriam erguer uma estátua ao Leon, em frente ao mais importante cinema de arte do Brasil. Qual? Aquele que insiste em buscar beleza onde ela está mais escondida. Puta saudade!

Ando com a minha cabeça...



Sorry! Há tempos que não atualizo o blog. Mas acontece que a viagem pelo Palco Giratório/Sesc tem sido uma loucura. É tanta coisa nova, tanta experiência diferente, que sobra pouco tempo pra pensar, escrever, manipular (doce ou ironicamente) as palavras e dizer o que se pensa. Quase sempre só dá vontade de pensar e deixar que os pensamentos morram naturalmente, dormidos e sonhados de uma noite para a outra, sem a pretensão de transformá-los em frases. As ideias libertam ou escravizam, conforme a situação! De hotel em hotel, de cidade em cidade, de teatro em teatro, grandes vôos (Tam, Gol, Trip, Avianca...) e grandes platéias. Muita emoção! Um dia em Porto Velho, dois dias depois em Campo Grande, mais dois em Belo Horizonte e Ouro Preto (a cidade mais emocionante do Brasil!), mais um aeroporto e Vitória e amanhã bem cedo (06h40) um salto para João Pessoa. Em quatro cidades mais ou menos mil pessoas assistiram ao nosso “Evangelho Segundo São Mateus”, uma celebração, um encontro de tanto carinho e tanta admiração que nós temos partido delas com vontade de voltar amanhã. Em Belo Horizonte alguém disse: “Dá vontade de ir embora com vocês!” E isso é uma constante. E nos intervalos do teatro, que fazer? Ando lendo, quase no fim, “Um Dia”, do David Nicholls. Inspiração do Leandro Knopfolz e que foi bem difícil no começo, porque o estilo do cara é meio superficial e com uma tendência ao engraçadinho que parece nunca acalmar. Mas com o passar das páginas, a inspiração humana de falar de quem é apenas simples e pouco especial, vai tomando conta da narrativa e quando as humanidades afloram com suas esquisitices, patetices, estranhezas, risos e dores, tudo fica muito gostoso. O que acontecerá com Emma e Dexter? As próximas páginas dirão. E cinema? Ai, que falta me faz. De um Cinemark a outro, temos que admitir os blockbusters. Fui assistir “A Hora do Espanto”, refilmagem de um terror/terrir que assisti há bem uns vinte e cinco anos, tom direção do Tom Holland, com Chris Sarandon e Roddy Macdowall. Nessa nova (velhíssima!) versão, com vontade fajuta de ser teen, mas parecendo múmia, o vampiro de Chris é vivido pelo Colin Farell, cheio de charme, mas sem um décimo da ambigüidade do original. O que o primeiro tinha de frescor, charme, terror e graça, este novo tem de obviedade, chatice e redução. Uma bomba em 3D, que é puro desperdício de sangue e caninos. E ontem, sem a menor empolgação, fui ver, também em 3D, os “Três Mosqueteiros”de Paul W. S. Anderson, o diretor de mais de um “Resident Evil”. Pois não é que me surpreendi? É divertidíssimo e muito belo. Tudo funciona e se o roteiro comete algumas traições fatais ao original de Alexandre Dumas, algumas invenções em nome da ação, da aventura e do espetáculo funcionam muito bem. É jogar a fantasia pra cima e recolher como chuva de serpentinas e confetes! Muito legal! Claro, Milla Jovovich nunca faz uma Milady de Winter pérfida e ambígua, minimamente aceitável (nostalgia de Lana Turner - a melhor! - na versão de 1948 e de Faye Dunaway, na de 1973), mas Athos, Porthos e Aramis mandam demais e se Logan Lerman é muito piá para um Dartagnan tão impetuoso, o guri se diverte e faz de conta que é decidido. O filme é ótimo e uma surpresa. Sessão da tarde que pede pipoca e refrigerante. E? Bem... Leon Cakoff, Ruth Escobar, Miss Maggie Smith, o Ministro dos Esportes, o José Carlos Fernandes, Guhstavo Henrique, Thiago Inácio, Áldice, Speechless e tanta coisa pra falar, chorar, admirar, acariciar, saudar e aplaudir. Vamos escrevendo e viajando...

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

MELANCHOLIA de Lars Von Trier


Lars Von Trier, este “enfant terrible” do cinema moderno, é uma fera! Diante de seu novo filme “Melancolia” só há que se lamentar as declarações de puro humor negro que ele deu no Festival de Cannes e que lançaram  sombra sobre seu filme. Uma pena, porque pelo menos no meu modo de ver “Melancolia” é seu melhor trabalho desde “Dogville”. Está tudo lá: a câmera tremida que às vezes incomoda um pouco e o esteticismo descarado e belo dos seus últimos trabalhos, mas mais que tudo, a crueza e o cinismo de quem tem um olhar agudo para civilização moderna (?), seus valores e decadências. “Melancolia” pode suscitar diversas interpretações e isto não é um defeito, mas eu gosto muito de vê-lo como uma sátira impiedosa aos cacoetes e valores burgueses. É impressionante ver aquela família de gente cheia da grana debatendo-se, entre incrédulos e apavorados, diante do inevitável. As lágrimas finais da mãe, interpretada no mais alto nível por Charlotte Gainsbourg, são o retrato patético de quem tem absolutamente tudo a perder e que não se conforma com isso. Não são lágrimas de tristeza, são de inconformismo. A burguesia intocável e invulnerável, pelo menos no cinema e na teoria, pode ser tocada e fragilizada, porque uma ideia é coisa perigosíssima! Lars Von Trier nunca é hipócrita e faz tudo o que é solido desmanchar-se no ar para nunca mais ressuscitar e dá uma declaração lúcida, autoritária e poética (talvez revolucionária!) da estúpida fragilidade das instituições baseadas em puros valores econômicos. Faz uma fábula endiabrada, talvez uma metáfora sem-vergonha, mas nos olhos de outra atriz, a encantadora Kirsten Dunst, ele dá o seu recado: quem nada tem, nada tem a perder. É preciso um cataclisma, um apocalipse, uma ideia de ficção científica do pé quebrado para que os olhos se abram. Como em “Dogville” Lars Von Trier reafirma sua condição de radical, cristão e marxista e por isso mesmo, tão artista quanto incompreendido. Que nunca se espere de um sujeito desses, declarações em cima do muro, nem filmes caretas ou hipocritamente otimistas. É um iconoclasta, um radical das imagens e fez um filmaço!!!

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

SAUDADES...

Café da manhã em Guaramiranga (Ceará) - Clique para ampliar
Viajar é experimentar saudades. Ir pra longe, pra mais longe possível – como agora que estamos, Grupo Delírio e eu, a mais de 3.000 quilômetros de Curitiba (Fortaleza, Guaramiranga, Sobral, Teresina...). E, viajando, escrevendo, lendo, ficar brincando com as palavras e com as ideias; fazer graça com o que há de mais divertido, emocionante e patético em nossas emoções viajeiras, porque, em grupo, soltos na vida, somos capazes de ações e raciocínios impensáveis na rotina simples do nosso dia a dia da província. Nunca se fala tanto, nunca se pensa tanto, nunca se sonha tanto, se deseja tanto, nunca se fala tanta merda em coletivo, fazendo de conta que a vida é veloz como um meteoro, que brilha, brilha e rápido some, no meio da noite. Sexo é um tema presente. Mesmo por que, pulando de cidade em cidade, ficando pouquíssimo em cada uma, os dias vão passando e a testosterona da gurizada vai gritando e saltando pelas orelhas. Que fazer? É possível (e bem provável!) que em 30 ou 40 dias de viagem não se tenha uma mínima chance de encontrar uma alma gêmea em termos carnais. E aí que vale seguir o conselho do velho Woody Allen: “Nunca despreze a masturbação. É fazer amor com a pessoa que você mais ama.” E talvez, entre as tantas experiências do Palco Giratório, essa de brincar consigo mesmo, seja uma grande chance. De quê? De autorreconhecimento talvez. Já que outra alternativa talvez nem haja. E o Gustavo Saulle ainda vai mais adiante, porque dividindo quarto com companheiros, um feliz momento de solidão também é raro. E sugeriu, quase inocente, que quando pinta a chance, o negócio é “adiantar a masturbação”. Garanti-la pelos próximos dias. Então que fica aqui, para a imaginação do leitor a compreensão desta técnica, rotineira para alguns mas, talvez, surpreendente para outros. E a saudade? Todas batem em nossas portas de hotéis! Do cachorricho (Speechless!) que pulou de cidade em cidade nesses tempos todos, do Guhstavo Henrique e seu olhar pra baixo, disfarçando uma timidez suspeita, do Áldice e suas mil e uma palavras e lógicas, que saem prontas e são indiscutíveis. E a expressão “na realidade” no começo da frase, pra dizer que alguma coisa tem que ser feita, independente de qualquer opinião contrária. Do Thiago Inácio, meu xodó, com seus dias de amargueza e tequila. Dos “Canalhas” de Passo Fundo, que me presentearam com um espetáculo maravilhoso, emocionante, moderno e forte. Nelson Rodrigues na veia! O comediante Zé Fidélis definiu saudade com uma frase tão divertida quanto cruel: “Saudade é um sentimento que a gente sente quando se sente a ausência de uma pessoa ausente que não está presente!” Mas viajar também é matar saudades, como o reencontro com o João Paulo Pinho em Guaramiranga, quando reconhecemos a praça, o teatro, o barzinho furreca onde jogamos sinuca e que não existe mais e o Bar do Odilon que ele me conta faleceu dois anos atrás (o Odilon!), mas que permanece firme (o bar!), cheio de gente; e jaguara, bagunçado como já era há quatro anos quando nos conhecemos num frevo pesado perto da madrugada. E vamos caminhando pelo Palco Giratório, vivendo a aventura do teatro por mares nunca dantes navegados e acumulando masturbações, saudades, amizades que vêm e vão, a culinária nordestina infinita em sabores e calorias, o calor total e uma outra outra lembrança da província, como ontem, quando fomos ao Shopping Teresina assistir (eu e o Guilherme) “Lanterna Verde 3D”, uma bomba!, e o Gustavo e a Cecé, “O Homem do Futuro”, (“lindo!”, segundo eles); e o Tiago encarando o “Planeta dos Macacos”(“satisfatório!”). Segue o Palco e, hoje em Teresina, vamos peitar às 15 horas, uma plateia de mais de 300 adolescentes. O que acontecerá? Jesus resistirá? Afinal, ele disse: “Vinde a mim as criancinhas!”, não me consta que tenha dito: “Vinde a mim os adolescentes!” Ok, é metáfora do coração, mas vale o trocadilho.
Edson e Guilherme fazendo turismo em Sobral (Ceará) - Clique para ampliar

PS: Fotos tiradas pelo fotógrafo oficial, Gustavo Saulle.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O AMOR NÃO DEIXA SOBREVIVENTES!

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Esta é uma das frases de Nelson Rodrigues que eu mais gosto. Reflete tudo o que eu venho sentindo e experimentando nesses tantos anos de vida, de teatro, de emoções e desafios. E, quem não? Daí que somos todos uns sobreviventes! A vida vai, vem e às vezes sinto me debatendo de um lado para o outro sem ter muita certeza de para onde o vento vai me levar, e de repente, quando dobro uma esquina, a surpresa: uma nova peça de teatro nasce! Eu sei que não é por milagre, mas também sei que no vórtice da vida louca, não parecia possível! Como hoje, que estreia aqui em Passo Fundo, minha nova aventura: CANALHAS!!!, Adaptação de crônicas apaixonadas de Nelson Rodrigues para um espetáculo canalha, com alguns atores canalhas, eu, um diretor canalha e um monte de gente em volta; um mais canalha que o outro. “Canalha”, esta palavra que ao longo do processo de criação do espetáculo, metamorfoseou-se em mil e um sentidos! Do mais ingênuo (?) ao mais trágico! A Cia. da Cidade virou, durante mais de três meses, minha casa, meu refúgio, meu porto de esperança, minha cura, minha paz... minha arte! Vim para cá, espírito no furacão da loucura, com meu cachorricho Speechless debaixo do braço e a certeza de que alguma coisa que refletiria minha visão do teatro e da vida, mais a amizade que me amarra ao Pieterson já há mais de 15 anos, fariam nascer, da paixão e do mistério, um espetáculo especial. E aqui, pensando também nas minhas opções dramatúrgicas, tenho a mais completa certeza de que AMO com a mais profunda intensidade, esse sujeito chamado Nelson Rodrigues! Já li tanto dele e, que me perdoem os radicais, mas entendo, concordo, aceito cada uma das suas opiniões sobre tudo, mesmo e até, quando ele é apenas um brincalhão irônico, pleno de inteligência. Um artista total? Não, Nelson Rodrigues é um homem total! Quero, com toda a força do meu espírito, continuar sendo um instrumento para que a sua literatura continue viva e sendo comunicada para o público, hoje e sempre! Mas volto à Cia da Cidade e à estreia de “Canalhas!!!”. Ontem, ensaio geral, Rodrigo Ziolkovski, Jean, Naiara, Letícia, Assunção, Pieterson, Marcio, Robson, Maicon e Pedro – eu (desavergonhadamente, dirigindo com um copo de cerveja na mão direita), olho, sinto de longe meus atores e seus textos e suas máscaras e me sinto muito, mas muito orgulhoso! Que belo espetáculo! Que trabalho intenso, verdadeiro, sincero até a raiz; vivo, enérgico, orgânico e sem-vergonha! E eu, como tenho a agradecer aos amigos que me receberam de braços abertos aqui em Passo Fundo, porque de coração mais aberto ainda, me deram mais uma chance de ser artista! Um puta artista! E de longe, sei o quanto é impossível manter-se vivo e poeta, sem os anjos da guarda que cuidam à distância, como também o Áldice (eternamente ao meu lado!), o Thiago Inácio, o Chico Nogueira, o Alfredo Gomes, o Marcos Minini e ainda os olhos curiosos e intensos do Guhstavo Henrique, tentando entender onde ele entra nisso tudo! Que dia feliz é esse da estreia, onde me agarro com unhas e dentes à minha maior paixão teatral: Nelson Rodrigues! E faço teatro com meus amigos. Não tenho pudores em afirmar que “Canalhas!!!”é o máximo! Arte, arte e arte, teatro como amo fazer. E pra terminar/comemorar, uma mistura de textos do Nelson, mais a minha contribuição em sentimentos: “Ah! Como deve ser invejado o homem que morre amando. Como deve ser invejado o homem que dedicou a vida ao amor. Como deve ser invejado o homem que foi amado até as duas últimas lágrimas de paixão e vida!” E o teatro? Ah, como deve ser invejado o homem que dedicou a vida ao teatro e por ele derramou até as duas últimas lágrimas de paixão e vida!
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domingo, 28 de agosto de 2011

Decepções e surpresas!


“Planeta dos Macacos – a Origem” era a minha maior expectativa para a temporada pipoca de 2011! O trailer era sensacional e os efeitos especiais da Weta de Peter Jackson prometiam alguma coisa muito próxima de uma revolução, trocadilhos à parte. Não, não acho que seja por isso, mas saí do cinema bastante frustrado, embora os efeitos mereçam o Oscar. Um roteiro frouxo e medroso e um diretor que capricha nas cenas de ação, mas não sabe dar conta de personagens, encarregam-se de atirar por terra um material riquíssimo e com fortes elementos de (melo) drama. Se por um lado tudo caminha para a construção da personalidade do macaco protagonista (Cesar), fruto de um milagre da ciência e de nenhum tipo de evolução natural ou inatural, o que enfraquece o contexto; quando o assunto é gente, os personagens entram e saem com a fragilidade de figurantes e a dimensão do clichê mais raso, sem que esperemos qualquer coisa deles que não o óbvio ululante, filho legítimo do mais vagabundo dos filminhos da sessão da tarde. A premissa da relação indigna dos homens com os animais e a beleza do olhar inocente de qualquer um deles, se desmancha logo no começo e o que poderia ser envolvimento emocional vira porrada. Em resumo, o filme de mais de 90 minutos é apenas o trailer alongado. Faltou a “Planeta dos Macacos – a Origem” uma, digamos assim, dimensão símia, um conflito shakespereano no sentido dramatúrgico. Algo que sobrava no primeiro filme da série (1968), com seus macacos maravilhosos e seus atores mais ainda (Roddy McDowall e Kim Hunter), embaixo de uma maquiagem que hoje parece tosca, mas que não escondia paradoxos, conflitos e dúvidas. Além do que, Franklin J. Schaffner dava uma aula de como dirigir um filme. É horrível quando se aguarda um filme com tanta ansiedade e ele simplesmente desaparece de nossa memória um segundo depois que saímos da sala do cinema. Fazer o quê? Mas, e ainda bem que sempre existe um “mas”, um outro trailer não decepcionou. Antes de “Planeta...” ainda em Curitiba, assisti ao trailer de “Amor a Toda Prova”, mais um título idiota para um filme americano, que não tem um título tão original assim (“Crazy, Stupid, Love”), mas pelo menos é mais divertido. Assisti ao filme aqui em Passo Fundo, ontem à noite. Com um elenco afinadíssimo (Juliane Moore, Steve Carell, Ryan Gosling e Emma Stone), essa comédia meio dramática, meio boulevard torce e retorce as desavenças do amor, esse clichê que não dá a mínima para questões como idade, condição social ou valores individuais. Quando o assunto é amor, nada fica em pé e tudo é possível. Os diretores Glenn Ficarra & John Requa (que dirigiram o estranhíssimo e horroroso "I Love You Philip Morris") parecem conhecer cada nuance das expressões amorosas e têm um carinho todo especial para os sentimentos reprimidos e para as atitudes sinceras. Seus personagens deixam-se levar pelas emoções e assim vão se encontrando e descobrindo que a vida é exatamente como ela se apresenta diante de nós e todo o resto é mistificação. É preciso aceitá-la, deixar-se levar por ela e nunca desistir. Como disse Clarice Lispector no início de “A Hora da Estrela”: “Tudo no mundo começou com um sim...”. “Crazy, Stupid, Love” é uma surpresa. Um filme de roteiro consistente e grandes coisas a dizer. Apaixonante, emocionante, encantador. Daqueles que não dão vergonha quando uma ou outra lágrima sincera deixa-se rolar. No amor tudo é felicidade, mas não exatamente como imaginamos. Dá pra entender? Nenhum problema, o filme está em cartaz e merece ser visto. Bom programa!

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Alguma coisa acontece no meu coração... e os escultores do tempo!


Estive em São Paulo, vivendo o Palco Giratório com o espetáculo "O Evangelho Segundo São Mateus", no Sesc Pinheiros e comemorando meu aniversário no dia 18 de agosto. Quando me perguntam quantos anos tenho, a resposta é imediata: "O suficiente!". E estamos conversados. Agora teatros! Na terça-feira fomos assistir "Macumba Antropofágica" no Teatro Oficina, com direção do Zé Celso Martinez Corrêa e luz do Beto Bruel. Ninguém deveria morrer sem antes ter assistido a um espetáculo do Zé, faz parte do aprendizado da vida e da consciência do muito que é o teatro. Há vinte anos fiz assistência para ele, no primeiro Festival de Curitiba, quando ele trouxe sua versão de "As Criadas" de Jean Genet, com o título de "As Boas". Não chocou Curitiba com sua irreverência, seu anarquismo e seu caos dionisíaco, mas porque arregaçou o cu na boca de cena. Cu, realmente é um escândalo! Ninguém se escandaliza com corpos sendo dilacerados em guerras no Jornal Nacional, nem com o coletivo de políticos ladrões e assassinos que brotam pelas árvores do Brasil, como pragas. Mas cu escandaliza. Sei. O que escandaliza mesmo é a liberdade! Zé Celso me ensinou muito naqueles dez dias, mudou minha maneira de ver a cena e cravou na minha consciência a ideia de que não importa que peça você esteja fazendo, você sempre estará com os pés no tablado e que tem que saber o porquê disso a cada segundo. "O que é isto, Zé?" "Stanislavski!", ele respondeu na lata! Em "Macumba Antropofágica" o Zé, a partir de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, faz uma desculpa pelo tempo pra desembocar no que o incomoda em nossas épocas: a reação homofóbica contra os direitos dos homossexuais e que aparece, descarada, em todas as formas e cores. Você não vê os evangélicos pagando outdoors condenando a fome, a violência e a corrupção. Mas usam a palavra de Deus para condenar o amor. Como se Jesus não tivesse dito: “Ama a teu próximo como a ti mesmo.” E a “Macumba...”? Um elenco de jovens atores, todos pelados totais, brincam, se beijam, rebolam, cantam e se expressam como índios, fazendo da roupa o signo do aprisionamento. Até a plateia fica sem roupa  e o espetáculo é o Zé de sempre, talvez menos elaborado, mas mais brechtiano que nunca e coerente até os ossos! Amo o Zé Celso, preciso dele, me alimento dele, vampirizo sua loucura para não me entregar à burocracia da mediocridade. Meu Zé Ninguém é poderoso e o Zé Celso é o meu Reich, batendo com o martelo de Dionísio na minha cabecinha, às vezes dura e medrosa. Viva Zé Celso Martinez Corrêa! E agora, pra variar, cinema! Na quinta-feira fui assistir "A Árvore da Vida", do Terrence Malick. Eis aí um diretor que tem um compromisso eterno com a própria mitologia. Todos cobram dele o original e por isso ele pode se dar ao luxo de tal. É um privilegiado. Seus filmes vão mal nas bilheteria mas a sua aura de "excêntrico" é necessária. Pelo menos para o meu gosto "A Árvore da Vida" é o seu melhor filme e uma das mais sensíveis experiências que o cinema nos oferece neste 2011. Terrence reflete sobre a infância, mas não apenas a infância física, mas a da vida na terra, aquela que permenece em nossa alma, apesar da maturidade; a experiência sensorial com a aventura da existência e suas cicatrizes. Faz uma viagem ora mítica, ora psicológica, onírica, imaterial e muito emotiva pelo exercício de pensar a própria vida. Não é um filme, é um estado filosófico! Como Clarice Lispector! Será que o Terrence ouviu falar dela?  Assim como Clarice usa as palavras para não entender a vida, Terrence usas as imagens para também encher-se de dúvidas! Viver ultrapassa qualquer entendimento! Sei que são coisas diferentes, mas não consigo deixar de pensar que o Zé com sua peça de mais de quatro horas e o Terrence com seu filme de quase duas e meia, fazem do tempo, matéria para escultura. São senhores dele. O que disse um dia o Tarkovski sobre a arte. Deitam e rolam no subjetivo para usar e abusar do tempo. Querem explicar toda a complexidade da vida em um único suspiro de obra de arte! Se conseguem? Não importa. Importa a experiência viva do momento. A cada segundo de suas respirações fazem uma nova, dividem conosco suas angústias e seu prazer pelo momento presente. São necessários e sabem disso. Teatro/cinema/arte. Em um determinado momento de "O Evangelho Segundo São Mateus", o Guilherme faz uma pergunta e uma provocação para a plateia: "Quem ouviu? Quem não ouviu não sabe o que perdeu!" Pois é, quem não viu um espetáculo do Zé ou um filme do Terrence Malick, não sabe o que perdeu. E pior: quem viu mas não viu. E estamos conversados.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

DÉJÀ VU


Toda a mídia de “Super 8”, de J. J. Abrams, apontava para um retorno aos bons tempos de Steven Spielberg, quando. “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, “ET” e “Goonies” eram reis do cinema e o nosso espírito adolescente se deixava embalar pelas novidades que Spielberg desenvolveu na escola de cinema: closes, movimentos de câmera, fotografia, uso da trilha sonora e elementos ícones da nossa infância como bicicletas, grupos de amigos, ausência da figura paterna e, claro, extraterrestres. O diretor J.J.Abrams é um revisionista e tem domínio incrível sobre a linguagem do cinema pipoca. “Super 8” traz, além de tudo, um elemento novo (?) praticamente desconhecido das novas gerações:  o próprio sistema Super 8, morto e enterrado pelo digital. Mas, mais que isso, o romantismo do desejo de dirigir um filme, construir vidas paralelas com o cinema e brincar de ser gente grande. A imagem em movimento, inventada e que dá colorido à vida e enche o coração de fantasia. Toda aventura infanto-juvenil é um rito de passagem e Steven Spielberg soube definir e tirar proveito disso como poucos diretores de cinema. Seu cinema de sucesso usou e abusou do adolescente que insiste em morar em nossos corpos amadurecidos.  J. J. Abrams e seu “Super 8”, filme homenagem, acerta em cheio quando explora esse espírito. Mas erra feio quando constrói uma história cheia de elementos de outros filmes ícones, mas que, absolutamente, não se encaixam para um filme de verdade. É como um álbum onde são coladas figurinhas de diversos outros, sem coerência dramática, sem plausibilidade e, quase, sem inteligência. “Super 8” é divertidíssimo, mas raso e óbvio e só se salva mesmo porque os efeitos especiais são de primeira (principalmente a primeira sequência) e o grupo de atores mirins, mais do que simpáticos e cheios de charme. Para o público americano que adora admirar a si próprio, “Super 8” deve funcionar como uma visita não monitorada ao museu do cinema que determinou duas décadas e que nasceu com o mago Spielberg; mas para o público internacional, com certeza, deve soar incompreensível e desnecessário. Claro, eu que sou tonto e assisti “E.T” sei lá quantas mil vezes e me identifiquei com o menino carente de afetividade que encontra o amigo extraterrestre, me diverti pacas. Mas o adulto que já mora dentro de mim há muitos anos, achou tudo uma (quase) perda de tempo, um desperdício de ideias e homenagem... uma varada na água. É difícil para um cinema que precisa entulhar os multiplex de gente à cada sexta-feira, reinventar-se e criar algo novo de verdade, mesmo que use o passado como referência. Não foi desta vez. E eu saí do cinema com duas imagens inesquecíveis, coladas para sempre na minha retina: uma nave mãe gigantesca surgindo plena e poderosa, por detrás da Montanha do Diabo e um garoto mais um extraterrestre voando, de bicicleta, diante de uma lua gigantesca e mágica. Nada em “Super 8” chega aos pés de qualquer uma das duas.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Cinema é a maior diversão!


Não tenho muita paciência pra assistir filmes na televisão. simplesmente não consigo me concentrar e acabo levando dois ou três dias para ver um filme. Assisto um pouco, paro, faço alguma coisa, leio, converso, vejo um outro canal, fuço a internet, como, bebo e depois volto ao filme e assim o tempo vai passando e o filme sendo assistido aos pedaços, contrariando todo o sentimento de um diretor preocupado com o ritmo da edição. É assim. Por isso gosto de ir ao cinema e avançar para dentro de um filme no escurinho e lá adormecer nos braços do verdadeiro cinema, o que é feito pra ser visto na tela grande, o que emociona, faz pensar, vira e revira ideias. Mesmo os filmes/pipoca, cheios de efeitos visuais, tiros, gritos e nomes feios. Mas nem sempre é possível e às vezes a televisão é uma saída. Hoje em dia com as 50 polegadas tudo ficou mais palatável e então que o melhor é ir se acostumando. Não é possível frear o trem da história. Daí que aqui em Passo Fundo, entre um Nelson Rodrigues e outro, tenho curtido uns filmes e devo dizer que tenho experimentado uns prazeres muito grandes. Assisti "Hanna", de Joe Wright (Desejo e Reparação), com Saoirse Ronan e Cate Blachet. Uma mistura de triller com ficção científica disfarçada de drama íntimo. Daqueles filmes excelentes, vibrantes, emocionantes que saem do nada para chegar a lugar nenhum. Mas a direção é tão, digamos assim, antiga, que chega a empolgar. Joe resolveu brincar de Alfred Hitchcock e conta a história de sua pequena ninja artificial (Saoirse Ronan) e sua batalha pela sobrevivência. É uma espécie de "Capitão América" infantil, uma experiência que o filme não explica porque não deu certo. Mas a menina tem os poderes, é mais forte que Bruce Lee e sai distribuindo porrada pra todo lado. Cate Blanchet faz a bandida e repete o personagem que viveu no quarto Indiana Jones. Claro, mudou a cor do cabelo, mas as caretas são as mesmas. Cate é fantástica, mas precisa de profundidade. No raso ela é óbvia. Mas "Hanna" é empolgante e divertido. Já esqueci, mas é divertido. Assisti também "Deixa Ela Entrar", a refilmagem americana do filme (excepcional!) sueco. São filmes aparecentemente parecidos, mas diferentes. Matt Reves, o diretor da refilmagem americana é sensível e profundo. Carrega nas tintas, mas conduz a história do amor (quase) infantil entre um menino vulnerável e uma vampira milenar que tem 12 anos eternamente. Reeves não se entrega ao estilo americano de fazer cinema e por isso o filme não fez o sucesso esperado. Gosto dos dois. Gosto da explicitude do americano e da introspecção do sueco. E todos os atores, de um e de outro, são excepcionais! Um belo filme, que... claro, não precisaria ter sido feito, mas já que foi vale a pena ser visto. Revisando o primeiro, amar é apaixonar-se por um vampiro que não quer o nosso sangue, mas a nossa escravidão. Foda! E pra terminar assisti (duas vezes), "O Primeiro Que Disse", a prova de que o cinema italiano vai bem, obrigado! Uma comédia excepcional. Daqueles filmes carinhosos, suaves, que tratam de um tema corriqueiro, mas incômodo, como a homossexualidade dentro da família, de uma forma sincera e sonhadora. Como seria bom o mundo se as pessoas vivessem como um filme desses. Onde tudo é complicado, mas tratado de maneira divertida, acaba fazendo da grossura da vida uma coisa boa de ser vivida. Um daqueles filmes que escolhem o humor e a doçura para falar das coisas espinhosas. Divertidíssimo, com atores excepcionais, permite-se refletir a vida como uma possibilidade deliciosa e que ainda abre as portas da poesia para sequências emocionantes. Não vi nenhum dos outros filmes do diretor Ferzan Opztek, mas o cara tem sensibilidade e acredita na vida. Um filme onde tudo funciona, uma fábula cor de rosa (sem trocadilhos!) onde os olhos brilham, os lábios abrem sorrisos leves e compreensivos e dizem, com o coração escancarado, que a vida é bela e só merece ser vivida se for plena. E que não deixa de ter lá seu tom de melancolia, quando o personagem mais interessante da história (a avó) diz com todas as palavras: "Os amores impossíveis são os únicos que nunca acabam. São os que duram por toda a vida". Cinema é a maior diversão!

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Hitchcock´s cameos

A mais divertida é em "Ladrão de Casaca", mas as minhas preferidas são em "Os Pássaros" e "Cortina Rasgada". Se bem que em "Intriga Internacional", "Um Barco e Nove Destinos" e "Disque M Para Matar" ele mandou bem!

Freud e Jung dirigidos por Cronenberg?

E com Michael Fassbender e Viggo Mortensen? Há que fazer um esforço muito grande pra não ser excepcional!
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Piéterson, Clarice, Nelson, Thiago, Alphonse, Passo Fundo e gorgonzola...


Sábado à noite em Passo Fundo e o Piéterson olha pra minha cara e diz que tem vontade de jantar uma comida especial.Onde? Apesar de já estar aqui há muito tempo, não conheço os restaurantes especiais. E ele sugere o Tratoria Toscana. Lá fomos e eu encarei um tortelone verde ao molho de gorgonzola. Sensacional! Um dos melhores restaurantes de massa que já visitei. E além de tudo um serviço de primeira e um ambiente dos mais agradáveis. Mas era isso que ia falar? Não. Ia falar de uma longa conversa que tivemos enquanto jantávamos. É bom dividir nossos paradoxos e contradições com um amigo. Porque na conversa tudo parece muito simples, enquanto na vida os (des)caminhos são mais complicados. É, digamos assim, um jantar nu, onde há pouco a esconder e as verdades, das mais inconfessáveis, parecem simples e até palatáveis, ainda mais quando divididas entre gorgonzolas, camarões e mussarelas de búfala. Amigos... como são importantes! Como conseguem deixar a vida mais leve, mais suportável. Lá pelas tantas, eu, aqui, em Passo Fundo, ensaiando "Canalhas!!!", de novo (re)encontrando Nelson Rodrigues, me pego surpreso com a distância. Nelson Rodrigues em Passo Fundo e Clarice Lispector em Curitiba. Eu, distante de Clarice, do Grupo Delírio, da minha casa, de Curitiba... do Espaço Cênico, que sonho transformar numa loucura de arte tão logo volte do meu exílio inesperado. Um espaço pra gente louca de poesia! Será que eu, o Áldice, o Thiago, a Nena conseguiremos? Alguma coisa muito doida me diz que sim. Então vamos lá! Mas, neste sábado de Passo Fundo, onde estou? Como sou? Digo, entre tantos paradoxos e uma garfada na suavidade do gorgonzola: "Tenho tudo o que preciso aqui, neste momento: um amigo, meu cachorricho Speechless e o teatro. Que posso querer mais? Em que outro lugar do mundo posso querer estar? A eternidade mora no presente!" E mais alguns minutos e recebo uma mensagem do Thiago de Curitiba, falando de "Minha Vontade de Ser Bicho" em sua penúltima apresentação: "...arrisco dizer que foi o mais lindo espetáculo desde a estreia..." Quando foi que - realmente! - eu me decidi pelo teatro? Como me sinto bem viajando em seu tapete mágico sem preocupações à direita nem à esquerda. Tudo parece tão claro! Na volta do jantar, numa Passo Fundo quentinha, apesar do inverno, conto ao Piéterson (pela milésima vez!) do quanto amo Clarice e Nelson e como os dois conseguem conviver em mim, numa boa. E como ainda pretendo afundar no universo de Mario Quintana, um poeta que amo com toda a paixão. Será que em 2012? Mas 2012 me reserva Paulo Leminski, Shakespeare e, quem sabe, Reinaldo Arenas! É a paz do estômago cheio, da alma plena, da vontade de nunca parar de pensar pelas palavras e pelas cenas. De amar os atores! Uma lufada de vento e um susto: "Será que não é perigoso imaginar que teatro é simples? Eu que estou me sentindo o máximo porque, pela primeira vez, consigo dirigir um espetáculo onde, além dos atores, só existem cinco cadeiras, cinco copos e duas garrafas de cerveja!" Lembro do Lanza me dizendo que sou o barroco em pessoa. Sou mesmo. Passo Fundo. Atravessamos a praça central e eu me pago pensando as quase 80 peças de teatro que dirigi. Nossa! Não dá pra dizer que foi um acidente! E, porque os pensamentos se misturam e se confundem numa velocidade incrível, lembro da frase mais maluca que ouvi da boca de John Hurt, vivendo Quentin Crisp perto dos 90 anos, olhando-se, semi-nu, no espelho, no filme "Um Inglês em Nova Iorque", que assisti no GNT, dia anterior: "Até o casamento consigo mesmo um dia acaba...". Ô, meu pai! Chegamos e eu, me atiro ao computador. Um e-mail do amigo Alphonse, que não tenho vergonha de mostrar aqui: "Grande Edson! Vc não erra nunca??? Mais uma vez muito obrigado! Sensacional a peça da Clarice Lispector. Irretocável. Aplaudimos de pé +1 vez! Falei com Thiago e fomos muito bem recebidos. A parte que mais me marcou, dentre tantas, foi quase ao final, quando a Marcia Maggi surta e quebra o vaso, aquela fala é demasiadamente interessante, caso se recorde, de que obra da Clarice ela foi extraída? Gostaria muito de ler o texto da peça. Nos falamos no Sesc, lá estarei e te procuro! Fique com uma poesia minha como forma de singela retribuição, me perdoe a ignorância de tardar tanto a tomar ciência de seu grupo e trabalho, de insofismável qualidade. Meus parabéns a você e a todos de sua equipe! Tamo Junto Sempre! "
Que maravilha seria,
Se eu pudesse,
Fazer
Tantas coisas quisesse,
O que faria,
Se tivesse esse condão?
Mas tenho!
E não faço?
Ou faço?
E não sei...
Estranha liberdade
Vigiada?
Talvez!
Só sei,
Que o que eu quero fazer,
Eu faço!
Sou livre!
Livre para amar,
Livre para voar,
Livre para ganhar,
Livre para perder,
Livre, livre...
Mas às vezes,
Ou sempre,
Me sinto tão livre,
Quanto um pássaro em uma gaiola,
Quanto um louco no pinel.
Quisera eu,
Pudera eu,
Ser mais louco que sou,
Ir mais a fundo nos meus pensamentos,
Fugir da normalidade
Que nos guia e domina
E não sabemos
Se nos faz
FELIZES...
E vou dormir ansioso pelo domingo, com o coração aos trancos e barrancos, a alma adocicando vagarosamente, Nelson Rodrigues sentado à beira do colchão, Piéterson, Marcio, Robson, Pedro e Maicon passeando pelo palco da minha imaginação e, agarrado ao Speechless, sei que a vida é sonho e que dele, vou ainda tirar muita coisa linda pra transformar em teatro! Ah! E cutucando a minha alma de artista, uma frase do Nelson, que acabei de ler, escrita em maio de 1968: "Daqui por diante, só darei uma peça minha ao diretor que provar a sua imbecilidade profunda." Abenção, Nelson! Como te adoro! E obrigado pela parte que me cabe!

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Então, se o negócio é sucesso de bilheteria!!!

"De Pernas Pro Ar" - o maior sucesso da bilheteria nacional em 2011!

Deu no blog do Arthur Xexéo: “Com a estreia, nesta sexta-feira, de "Não se preocupe, nada vai dar certo", de Hugo Carvana, o cinema brasileiro vai atestar se este é mesmo o seu melhor período dos últimos anos em termos de bilheteria. Como comprova o site Filme B, os números, desde o mês passado, são consagradores. "Cilada.com" já ultrapassou a marca de 2,5 milhões de espectadores. "Qualquer gato vira-lata" chegou, no último fim de semana, a 1,1 milhões. E "Assalto ao Banco Central" alcançou, no meio desta semana, seu primeiro milhão de espectadores. Essas bilheterias associadas a sucessos do começo do ano, como "De pernas pro ar" (3,5 milhões) e "Bruna Surfistinha" (pouco mais de dois milhões) devem trazer ao cinema brasileiro uma ótima participação no mercado em 2011.” Então é isso, o Cinema Brasileiro vai de vento em popa! Até acho fantásticos e comemoráveis estes números se levarmos em conta que o cinema americano (guardando as devidas proporções...) também navega em águas parecidas. As maiores bilheterias do ano, as que carregam milhões de pessoas para os multiplex, são porcarias feitas para aguçar olhos amortecidos e preguiçosos. Até este meio de ano quem deu as cartas por lá foi “Transformers 3” (mais do que abaixo da crítica), “Se Beber Não Case 2” (despencando no lodo), “Capitão América” (de doer de chato!), “Piratas do Caribe 4” (Johnny Depp metaformoseando grande interpretação em canastrice metida a paródia!) e outros tão ruins quanto...! “X-Men 4”, “Rio”, “Midnight In Paris” são apenas boas exceções. Então que até aí, tudo bem! Mas o que torra a paciência é que você não vê em cartaz filmes brasileiros verdadeiramente artísticos, preocupados com questões humanas, com linguagem ou com beleza. Não é possível? Oras, mas tudo não é patrocinado pelo governo? Então, o que custa fazer um exerciciozinho de imaginação, pegar um dinheiro desses e fazer uns dez ou doze filmes no nível de um “O Segredo dos Seus Olhos” (Argentina) ou “Poesia” (Coreia do Sul), por exemplo? Esse é o mistério que ronda a nova onda do cinema brasileiro. Há, de verdade, o que comemorar? É a expressão da alma brasileira que se vê em alguns daqueles filmes que estouraram nas bilheterias? Estava hoje assistindo a um filme muito interessante feito para a televisão inglêsa em 2009: “Um Inglês em Nova Iorque”, sobre o homossexual assumidíssimo, Quentin Crisp (1908/1999). Em determinado momento uma garota olha para ele e solta algo como: “Você é tão viado que nem gay é!” Perfeito! Mas não era disso que eu ia falar. Quentin, interpretado no crepúsculo, pelo maravilhoso John Hurt, a certa altura apresenta um artista plástico a um dono de galeria e o cara recusa o trabalha com o argumento de que, em nossos tempos, ninguém está preocupado com mensagens, ninguém quer saber de bandeiras, de arte engajada em ideias. E Quentin, entediado pela mediocridade geral, comenta: “Arte que não pensa, que mantém todo mundo no conforto…..”. Mais ou menos isso. Pra conseguir dinheiro do governo (leia-se povo brasileiro!), o sujeito tem que convencer um diretor de marketing de uma empresa qualquer, que o filme vai ser um sucesso... de público, claro! Alguma coisa está fora da ordem... Godard disse dia desses que o cinema de autor estava acabado: “Se um norueguês consegue fazer um filme tão ruim como no cinema americano...!” Na mosca, grande Godard!

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

NOVELAS...



Não tem jeito. Aqui em Passo Fundo está passando "Capitão América", "Capitão América", "Capitão América" e "Capitão América", então que nos intervalos dos ensaios de "Canalhas!!!" eu deito no sofá nesse frio de zero grau, agarro-me ao meu cachorricho Speechless, enrolo-me nas cobertas, faço um capuccino e me atraco na televisão. Mediocridade? Talvez, mas acho que é um descanso de loucura, como diria o Guimarães Rosa. Claro que reduzo a capacidade cerebral ao mínimo indispensável e me divirto demais, por exemplo, com a Fernanda Torres em "Entre Tapas e Beijos". Essa mulher é um monstro! Uma criatura inigualável, faz de uma dobrada de joelhos a coisa mais engraçada do mundo, e não tenho dúvidas de que o seu repertório de caretas e intenções deve ultrapassar fácil um milhão! O roteiro? Sem comentários. Novelas. Acho que já disse que houve um tempo em que escrever uma novela deveria necessariamente levar em conta duas leis: mocinho e mocinha têm que ser idiotas e não devem, nunca, enxergar um palmo diante do nariz, e as tramas devem ser idiotas, como se os personagens em geral, não conseguisses distinguir um colibri de um rinoceronte. Hoje um terceiro elemento deve ser levado em consideração: o público também tem que ser idiota! E por isso agora, a televisão brasileira vai de vento em popa, ampliando suas garras metálicas para o cinema brasileiro. Parafraseando Nelson Rodrigues, coloque um idiota em cima de um caixote numa esquina qualquer, dando um discurso, e dezenas, centenas, milhares de idiotas vão segui-lo cegamente. Não sei porque, mas aqui, deitado na poltrona, assistindo "O Astro", estou me sentindo um idiota perfeito. Mas tenho que considerar que a Regina Duarte é um gênio. Nesse capítulo de quarta-feira ela deu um show. Me fez jogar as cobertas pra cima, rir, gritar e aplaudir! Uma atriz como ela faz uma novela inteira parecer "E O Vento Levou"! E olha que ela, corajosamente, encarou uma parada dura: refazer um personagem que foi interpretado por Tereza Rachel, uma das atrizes mais poderosas que eu já vi na vida. As duas são ótimas, mas têm processos diferentes. A Regina interpreta com o coração e a Tereza com a xana, por isso a Tereza vai a lugares inimagináveis. Nenhum problema, a Regina me deu prazeres nesse capítulo de "O Astro" que eu não tinha há muito tempo na televisão. E o Tarcísio Meira? Em nova chanchada do Hugo Carvana! Deu uma declaração, no mínimo estranha: "Fazer galã é muito chato!". Ué, ele queria fazer galã aos 80 anos? Passou a vida inteira fazendo caras e bocas de mocinho e agora, sátiro gagá, faz a caricatura de si próprio "interpretando" um lelé da cuca desgovernado em "Não se preocupe, nada vai dar certo". O filme do Carvana pode até ser bom (e espero que seja!), mas o trailer é podre de ruim. Assisti "Hanna", do Joe Wrigth (Desejo e Reparação), com a Saoirse Ronan e a Cate Blanchet. É daqueles filmes excelentes que saem do nada pra chegar a lugar nenhum, mas são divertidíssimos! E a Cate Blachet, na maior cara de pau, interpreta a mesma bandida que fez no quarto Indiana Jones; só que lá de cabelos pretos e aqui ruivos. Ganhou o cachê fácil! Depois eu falo.

domingo, 31 de julho de 2011

ALHOS E BUGALHOS


01. CAPTAIN AMERICA - A fórmula é rasteira e (quase) infalível: um sujeito que é predestinado a ser herói e salvar algum mundo, recebe de um lugar qualquer (mágica ou tecnologia) uma força especial e ganha a responsabilidade de defender o bem contra o mal, seja ele qual for. É preciso que haja dois conflitos, um interno e outro externo. Um trauma de infância sempre ajuda. Uma mocinha além da fragilidade e, de quebra, um amor impossível. Um bandido psicopata e insano é básico! E muito tiro, grito e nome feio. Se tal fórmula deu sempre tão certo (Superman, Batman, X-Men, Thor, etc...) por que não fizeram uso dela em "Capitão América - O Primeiro Vingador"? O filme é insosso e nada é emocionante. Nada, de verdade, acontece. Alguém disse que é um longo trailer para um próximo filme (Os Vingadores). Muito provável. E nem bons atores como Tommy Lee Jones, Stanley Tucci e Hugo Weaving (que se saiu melhor como travesti em "Priscilla - A Rainha do Deserto") garantem a diversão. Um tiro n´água! Joe Johnston, que fez o melhor dos "Jurassic Park" (o terceiro), afunda na burocracia.
02. MONEY - "Harry Potter e as Relíquias da Morte - parte 2", entra para o seleto grupo de filmes que arrecadaram mais de 1 bilhão de dólares nas bilheterias internacionais. É a maior arrecadação de toda a franquia. E, modestamente, "Meia-Noite em Paris", chegando aos 45 milhões de dólares no mercado americano, é a maior bilheteria de toda a carreira de Woody Allen. No Brasil, cujo público é estimado em aproximadamente 250 mil espectadores, o novo Woody vai chegando em 1 milhão de espectadores. Como diz um bom gaúcho: "Não está morto quem peleia!".
03. METRALHADORA - Glauber Rocha, botou pra quebrar num programa do final da década de 70, chamado "Abertura" da TV Tupi. Não é preciso ter lógica, não é preciso ser coerente, não é preciso ter objetivos claros, porque afinal de contas, é a televisão. Glauber meio Chacrinha, meio Zé Celso, meio Banana de Pijama, deita e rola num Brasil caótico e despersonalizado. Glauber era um gênio? Sei lá... mas fez um filme especialíssimo: "Terra em Transe". Reproduzo aqui um pedacinho da crônica de Nelson Rodrigues sobre o dia em que foi ver o filme... Quem quiser ler o resto que vá ao livro "A menina sem estrelas": "Na própria tarde de sexta-feira, perguntei a um conhecido: - ´Bom o filme?´ E o sujeito, que é um legionário da esquerda idiota, respondeu: - ´Fascista.`Insisti: - ´Rapaz, não perguntei se era fascista. Perguntei se era bom.´ ... Tivemos, eu e o desafeto de Terra em Transe, uma discussão truculenta. Disse-lhe que, para meu gosto, tanto fazia o filme comunista, fascista, espírita, budista, macumbeiro ou jacobino. eu queria, apenas, com minha feroz simplicidade, que fosse um bom filme e nada mais. O bate-boca não chegou a nenhuma conclusão inteligente. Por fim, perdi a paciência e fiz-lhe o apelo: - ´Não me cumprimente mais. É favor. Me negue o cumprimento.´ O que defendemos hoje, com unhas e dentes? Além de dinheiro, é claro!!!

sexta-feira, 22 de julho de 2011

quarta-feira, 20 de julho de 2011

PREGUIÇA

Olha, gente! Fui assistir ao último "Harry Potter". Achei quase tão chato quanto o penúltimo. Tentei, tentei e fiquei com preguiça de escrever sobre. Parece uma novela das sete, com soluções apressadas e truques melodramáticos. Então que fico por aqui, não falo mais no assunto, exceto que o Guilherme Fernandes se desmanchava em lágrimas despedindo-se dos seus companheiros de literatura de tantos anos. Fãs são cegos, surdos e mudos e sua fé é inabalável! Menos mal. Agora publico aí uma coisa que não tem nada a ver, mas por algum caminho inexplicável até tem. Diretamente da página do facvebook do Guilherme Weber, ENCONTROS MEMORÁVEIS: Woody Allen e Michael Jackson. Segundo o Guilherme, deveriam estar trocando receitas médicas.

terça-feira, 19 de julho de 2011

segunda-feira, 11 de julho de 2011

A VIDA É SONHO


Leio uma belíssima entrevista de Diogo Vilela no Globo.com. O mais bonito é ler a sua reafirmação da beleza que é o teatro e da certeza de sua importância na sociedade. E tem gente que nunca foi ao teatro e nem tem ideia do que seja. Um irmão de um amigo meu, super executivo de uma multinacional me disse uma vez numa churrascada: “Nunca fui ao teatro e nem vou. Vivo muito bem sem ele!” Não tenho dúvidas. Mas esse super executivo, claro, não contou toda a verdade. Quando vai à New York ele tira duas ou três noites para assistir aos musicais (Lion King, Billy Elliot, Spider-Man, etc...). Ultimamente não precisa ir tão longe, São Paulo e Rio de Janeiro têm se ocupado em apresentar as cópias (quase) fiéis dos musicais. Mas meu amigo prefere assisti-los em inglês: “é mais chique!” Agora voltando ao Diogo, um ator fantástico, maravilhoso e que nos deu no teatro algumas das interpretações mais poderosas de nossas vidas. Lembro de uma que a qual assisti arrepiado inteiro, “Diário de Um Louco”, de Gogol. Inesquecível! Diogo fala que a profissão de ator morreu. Que ator virou uma função. “A minha profissão acabou. O ator morreu. Virou uma função. Foi vitimada pela modernidade. O fim do século XX, a chegada do XXI e a força que a tecnologia assumiu reafirmaram o fim da necessidade dos relacionamentos afetivos e sociais. As pessoas não têm mais a obrigação de serem afetivas. É uma visão pessimista, eu sei. Mas vejo essa virtualidade como um corte na capacidade de afeto. Estamos metabolizando muito bem a desumanidade, e isso me faz pensar: "Quem iremos nos tornar?". Eu tenho essa preocupação romântica. Tenho medo de a minha profissão não ter mais significado. Ela está perdendo sentido, as pessoas se comportam como supostos artista e isso passa batido. Tudo é suposto. E eu sempre me coloquei como autor em cena. Mas não quero ser encarado como anacrônico ou reacionário...Esta talvez - vejam bem, estou dizendo talvez - seja uma preocupação de alguém que chega aos 50 e percebe as grandes transformações nas relações humanas. Qualquer sujeito que sai de casa e vai ao teatro, o faz em busca de contato humano. Mas que contato humano o sujeito pode ter assistindo, por exemplo, “O Despertar da Primavera”, musical vencedor do Tony e recentemente encenado no Brasil? Nenhum. O show tomou o lugar da reflexão profunda e humana de Wedekind. Tudo virou uma, digamos assim, “Malhação” de época, reduzido ao mínimo denominador comum para caber em qualquer gaveta. Resta a performance e isso só reafirma o que disse o Diogo: “O ator virou uma função.” Aos cinquenta anos é quase impossível ser romântico, é complicadíssimo acreditar em ideologias políticas, a realidade bate em nossa porta com uma frequência assustadora. Aos cinquenta anos a solidão começa a virar companheira e as palavras parecem cada vez mais repetitivas. Continua Diogo: “Com a chegada do >ita<reality e da sociedade do espetáculo, a dramaturgia, que sempre levou o ser humano a pensar suas particularidades, ficou menos seletiva e mais expositiva, preocupada com o espetaculoso, distante das questões humanas. Para mim, que cresci na profissão em meio à ditadura, acho que o teatro precisa lidar com as grandes questões do ser humano. Me sinto um peixe fora d'água. Tenho pavor de a minha profissão acabar.” Acho que temos todos, nós artistas. Mas a sensação pior é, de verdade essa, a de “acabar”. Porque a vida exige “jogo rápido, língua ligeira e olhos arregalados”! É preciso afundar-se no teatro, eis a resposta que me vem, assim do nada! Afundar-se. Acreditar que o espetáculo ainda é o homem e que ele precisa, cada vez mais, pensar sua condição. E de resto? A fila anda, as horas passam e tudo se transforma. Hoje, aqui em Passo Fundo, comprei um livro, “Ficção de Polpa – volume 2”, uma coletânea de contos fantásticos. Na primeira página uma citação de Ray Bradbury: “Qualquer coisa que você sonhe é ficção, e qualquer coisa que você alcance é ciência. Toda a história da Humanidade não é nada além de ficção científica." Diogo diz que escreveu uma peça de teatro de ficção científica. A história de um homem que ganha o prêmio Nobel porque descobriu a fórmula da juventude eterna. A peça é o sonho...